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Cartórios denunciam uso indevido de dados.
O
presidente do Instituto de Protestos de Títulos do Brasil, Léo Barros
Almada, denunciou hoje à CPI do Serasa que informações
sobre títulos não protestados têm sido repassadas ilegalmente a terceiros.
Os cartórios de protesto de títulos do Brasil são obrigados, por lei, a
fornecer às empresas de proteção ao crédito relações diárias de pessoas
que não puderam pagar suas dívidas e tiveram seus títulos regularmente
protestados. A lei proíbe que informações sejam divulgadas a
terceiros sem que os títulos ou documentos de dívida tenham sido
regularmente protestados.
Segundo Léo Almada, esses dados circulam livremente, inclusive pelo Serasa
e por outras empresas particulares com a mesma atividade.
Para ele, somente deveriam ser dadas informações sobre nome de pessoas
expressamente requeridas aos cartórios, por qualquer interessado. Jamais
por relações indiscriminadas.
Ele assinala não ser contra a existência de serviços cadastrais de
proteção ao crédito, como a Serasa e os SPCs - serviços de proteção ao
crédito que são mantidos pelas associações comerciais - mas considera
que está havendo abuso por parte desses serviços. "Essa é a opinião do
Instituto de Protesto de Títulos no Brasil, do qual eu sou o
presidente".
Léo Almada
encerrou seu depoimento dizendo que só vê uma maneira de se acabar com
as negativações de nomes de pessoas físicas ou jurídicas que não tiveram
seus títulos ou documentos de dívida regularmente protestados. Seria a
aplicação de multas diárias por cada nome que fosse negativado sem
protesto. Que essas multas teriam que ser aplicadas em quem fornece a
informação e nas empresas que negativam os nomes independentemente de os
títulos ou documentos de dívida terem sido regularmente protestados,
como é o caso do SERASA, dos SPCs, da EQUIFAX DO BRASIL, etc.
CONTA DE R$ 100,00
Ele relatou a história do ex-deputado
Márcio Braga, que é notário e esteve presente na audiência de hoje, foi
surpreendido com seu nome negativado na Serasa. O representante detalhou
que o ex-deputado tentou saber por três dias a razão de seu nome constar
do banco de dados da instituição, sem obter sucesso. Somente após esse
período, o ex-parlamentar conseguiu esclarecer que se tratava de uma
conta no valor aproximado de R$ 100,00, referentes a serviços prestados
pela Telemar. Léo Almada lembrou que o ex-deputado não havia sido
notificado anteriormente sobre a dívida, o que ele considera ilegal e
imoral.
PODER EXCESSIVO
Para Cláudio Marçal Freire, diretor da
Associação de Notários e Registradores do Brasil, a atual legislação
concede poderes excessivos às empresas de proteção ao crédito. Ele
considera inadmissível um ente público, como um cartório, ser obrigado a
repassar informações para empresas privadas, que vão obter lucros com
estes dados. Ele defendeu a manutenção do controle do cadastro de
inadimplentes por agentes públicos. Por isso, ele defende a modificação
da lei.
Cláudio Freire argumenta que o cadastro de proteção ao crédito mantido
por entidades privadas é uma usurpação dos direitos do consumidor. As
atividades dessas entidades acabam com a necessidade de existência dos
agentes públicos, como os notários e os registradores, que receberam
delegação do Poder Público para exercer seus serviços. Ele acredita que
as entidades privadas de cadastro de inadimplentes não são imparciais,
pois estão a serviço de bancos e associações comerciais.
O diretor enfatizou que os delegatários
(notários e registradores) agem com imparcialidade: o cartório verifica
se houve a prestação do serviço, se o contrato firmado entre as partes
está dentro da lei e se não houve realmente pagamento pelo serviço ou
mercadoria. "Enquanto o cartório está fazendo isso, não há divulgação
dos dados do devedor". Cláudio Freire disse ainda que, se quiserem
centralizar as informações sobre os devedores, devem fazê-lo com as
informações dos agentes públicos e não com informações de entidades
privadas.
Ele também defende que os Procons (órgãos de defesa do consumidor) sejam
gerenciados por funcionários de carreira concursados, como são hoje os
notários e os registradores. "Atualmente, a indicação para a diretoria
do Procon é uma indicação política, e isso compromete a imparcialidade
do órgão", analisa.
O autor do requerimento da audiência, deputado Alex Canziani (PTB-PR),
considera que há necessidade de se rever a legislação referente aos
cartórios de protestos, mas lembra que é preciso criar leis para prever
sanções aos abusos cometidos pelas empresas de proteção ao crédito. O
parlamentar defende mudanças que regulamentem os cadastros e estabeleçam
sanções e multas para o uso ilegal das informações. “Tem que ter uma
sanção para que acabe esse abuso contra o consumidor brasileiro".
NORMAS GERAIS
O relator da comissão, Gilberto Kassab
(PFL-SP), enfatizou que as decisões adotadas pela CPI vão ser aplicadas
a todas as entidades que mantêm dados cadastrais de consumidores e não
apenas à Serasa.
O presidente da comissão, deputado Giacobo (PL-PR), diz que o depoimento
dos representantes de cartórios serviu para demonstrar que, para
negativar o nome de qualquer consumidor, é preciso haver procedimentos
claros e legais, como os que são realizados pelos cartórios.
Na próxima terça-feira, dia 26, a comissão recebe o ex-presidente do
Banco central, Armínio Fraga, para explicar o convênio com a Serasa.
Reportagem – Adriana
Magalhães e Joaquim Nogales
Edição - Paulo Cesar Santos
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